Ambitionz Records

Dia da Consciência Negra

É preciso falar sobre isso… 

Conheci o hip-hop, rap e funk como amplificadores de vozes marginalizadas. Formas de expressão para pessoas como eu, e tantas outras que se identificam com esse movimento, capazes de expressar artisticamente sua realidade e lutar utilizando suas vozes, através de versos, para modificar esse cenário. Inflamando, como escarlatina entre aqueles do mesmo convívio,  com o intuito de fazê-las perceber essa realidade e se mover para talvez, modificá-la.

Minhas letras refletem minhas pesquisas e o que entendo sobre R-A-P e toda a cultura que envolve a favela, um berço de ouro cheio de talentos, mas muitas vezes explorado por uma ótica que visa lucros a partir de uma demanda específica.

Busco conhecimento constantemente, com o objetivo de espalhá-lo, principalmente para os meus, através de um canal que ouso dizer ser mais acessado do que uma sala de aula. Não digo isso com glória ou para  comparar, nem a mim nem a qualquer outro nessa caminhada, com os ótimos profissionais dessa área, que são pouco reconhecidos ou creditados por muitos que passaram por suas vidas.

Entendo que fazer mais do mesmo não faz sentido para mim. Faço o que faço porque gosto, e a ideia de, um dia, talvez, uma criança preta se veja em mim ou a classe trabalhadora me escute no caminho de volta para casa, no busão, me alegra.

Minha intenção não é criar algo novo ou parecer um gênio. A ideia de genialidade é algo relativo, que se torna um consenso, e para isso, é necessário dinheiro ou alguém com um nome importante. Não é algo que um favelado encontre em qualquer esquina.

“O rap ainda é dedo na ferida”, ouvi alguém dizer certa vez, e concordei. Quem se desvirtuou desse sentido, foi manipulado.

Desde a mina preta que expõe sua realidade, mas é ignorada, até o neguinho da quebrada que é desacreditado, colocado para baixo, virando o monstro que suas tias e a sociedade chamam de marginal. Do gay preto da quebrada, que vira chacota nas esquinas, é expulso de casa, até a mina lésbica que é estuprada e abusada por ter sua orientação sexual fetichizada. Da mina trans sem oportunidade, que tem seu corpo consumido pela pornografia à noite e, durante o dia, é morta ou espancada por aqueles que lhe tiram o direito à vida.

Da mãe preta solo que luta e, por vezes, chora por não conseguir levar o leite para casa, aos filhos estudantes que sofrem bullying e outros abusos físicos e psicológicos na escola e dentro de suas casas. Do mano frentista aos que vendem doces nos sinais, ônibus e estradas, sempre sob o olhar indiferente de quem está do lado de dentro do carro. Do cara que leva um tapa de um policial só por passar tarde da noite nas ruas da quebrada, sem ter feito nada.

Da beleza de corpos reais e naturais, pouco apreciada e mal explorada, causando danos psicológicos ao criar a necessidade de se parecer com o que é vendido. Do ambiente poluído ao acesso escasso. Do amor mais belo ao perfeito fracasso. O hip-hop, rap e funk e toda a arte da favela podem ser a junção dessas vozes, com o intuito de se tornar um remédio que age como um denunciador contra esse câncer. Nunca foi sobre cada um no seu quadrado; é sobre o coletivo.

Mas quem vai entender isso?
Quem quer.
Quem vai se importar?
Não sei dizer.
É perigoso falar sobre isso? Pode se contradizer?
Foda-se, é o que sinto no momento.
Quem já tem essas vozes nas mãos vai agir de forma efetiva?
Vai saber.

Falar sobre isso é quase esperar por uma figura messiânica surgir dentro desse movimento. Quase todo mundo quer isso, dentro da perspectiva de cada um. Mas uma coisa é certa: o inimigo é grande. Gigantes demais para um só enfrentar. Nessa cena ou em qualquer iniciativa que seja a favor de uma minoria, se ganha espaço para outros também virem no intuito de fortalecer a caminhada. A favela não vence se só seu bolso estiver cheio.

Ninguém entende. Ou finge não entender.
Tão pouco se importam. Militância, porra nenhuma. É fato escancarado e público: quem tem visão, vê! Mas ignora, dependendo da bolha, e segue no efeito manada. Depois que pagar quebrada.

Visão limitada e falha.

Era para ser apenas um bloco de notas, mas virou isso.
Enfim, apenas a visão de um neguinho da quebrada.

Madido

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